Porquê ter apenas uma ocupação profissional, se pode ter duas, três ou quatro?
Por Cristina Belo
Francisca, Lara e Vilma provam que vale a pena apostar em diferentes talentos e converter hobbies em negócios.

Gestora imobiliária/Relações Públicas/Crafter
Francisca Atouguia, 28 anos,
arrenda casa na Lapa com o namorado, conduz um Hyundai Getz, não abdica do seu iPhone e é incapaz de gastar 100 euros numa peça de roupa.

“Nunca recebi mesada. Desde os 12 anos que me habituei a fazer pequenas coisas, pulseiras e colares, para vender à família. Dos 14 aos 20 anos fiz baby-sitting e sentia-me independente financeiramente. A minha mãe habituou-me a isso e ainda bem. Trabalhei sempre enquanto estudei. Optei pelo curso de Relações Públicas e Publicidade no INP. Fiz vários serviços como hospedeira de eventos, de Norte a Sul do país, e foi uma oportunidade para aprender mais sobre organização de eventos, a área que me interessava. Mas, entretanto, comecei a trabalhar numa consultora de sistemas de informação a ganhar dinheiro a sério e o curso que já não me motivava ficou pelo caminho. Atualmente, trabalho numa multinacional de consultoria imobiliária, a Cushman & Wakefield, que figura sempre no top das melhores empresas para trabalhar.

Estou lá há quatro anos e faço parte da equipa de gestão de condomínio de edifícios. O ambiente é ótimo e sinto-me orgulhosa de trabalhar nesta empresa. Quando há dois anos fui convidada para fazer relações públicas para festas, aceitei logo por amor à camisola, mesmo sem ganhar dinheiro inicialmente. Entretanto, sucederam-se os convites. Vou fazendo os contactos durante a semana, à noite, por mail, telefone e Facebook. Por isso, é fácil conciliar as duas atividades porque as festas só acontecem ao fim de semana. Aliás, é caso para dizer que misturo o trabalho com o prazer, porque aproveito para estar com amigos e conhecer pessoas novas, embora seja duro no que diz respeito aos horários. À segunda-feira estou com o jet lag. Mas é compensador financeiramente. Ainda assim, não é uma verba com a qual conte para viver, porque não é regular.

Como sempre tive o bichinho dos trabalhos manuais, no ano passado fiz um curso de costura criativa e o meu namorado ofereceu-me uma máquina nos anos. Para muitas mulheres não seria o presente ideal, mas eu fiquei muito entusiasmada. Sou muito empreendedora e proativa em tudo o que possa fazer-me evoluir. Criei então a minha marca, a ChicaMelancia, e um blogue para divulgar as peças. Foram tantas as encomendas este verão que até fazia noitadas. Do que mais gosto é de sair do escritório e ir inspirar-me nos armazéns de tecidos em Campo de Ourique. Serei workaholic? Não. O trabalho dá-me muito prazer. Além disso, a minha vida multifacetada é totalmente compatível com a minha vida familiar. Ainda assim, tenho noção de que com filhos não seria possível. Admito que a questão do curso continua a atormentar-me. Quem sabe para o ano me decido. De qualquer maneira, estou otimista quanto ao futuro e conservo sempre o ensinamento da minha mãe de que devemos fazer o que queremos desde que sejamos felizes com as nossas escolhas.
http://chicamelancia.blogspot.com/


Psicóloga/Formadora/Professora de Fitness/Consultora da Maleta Vermelha
Lara Almeida, 36 anos
, vive com o marido e as duas filhas, de três anos e nove meses, numa moradia própria na Moita. É do signo Touro e guia um Nissan Qashqai.

“Sempre me senti muito aberta aos desafios, vou muito atrás das coisas que me suscitam interesse. O meu lema de vida aprendi-o como conselheira de beleza da Yves Rocher, onde comecei aos 19 anos e ouvi dizer que a nossa pele ‘está’ em vez de a nossa pele ‘é’. Ou seja, em termos profissionais, não sou nada para sempre, ‘eu estou’... Agora, estou psicóloga, mas daqui a uns tempos posso estar camionista! Encaro tudo como válido, interessante e desafiante. Quando fiz o programa Erasmus na Finlândia, trouxe de lá a força de acreditar e valorizar as ideias mais simples e nunca encará-las como disparatadas.

Terminei o curso com 25 anos e ao fim de seis meses desempregada, sempre com procura ativa de trabalho, pensei que não podia estar cingida à minha área profissional. Como desde pequena dizia que gostava de ser professora de Educação Física, encontrei aí um novo rumo. Curiosamente quando ia a caminho do CEF (Centro de Estudos de Fitness) para fazer a minha inscrição, recebo um telefonema a confirmar que tinha sido aceite como psicóloga no Centro Social de Palmela. Ainda assim, não desisti das aulas no CEF e avancei com aulas aos sábados durante dois anos. No segundo ano, de estágio, já estava a dar aulas no Pinhal Novo e nunca mais parei. Outras das áreas em que estou envolvida é na formação de voluntários estrangeiros a exercer em Portugal e em temáticas voltadas para a saúde mental.

A formação consegue ser compensadora financeiramente. A maior mudança na gestão do meu tempo veio com a maternidade. Prevalece a minha vontade de ter tempo para a família; mas confronto-me com a dificuldade em dizer ‘não’ aos compromissos profissionais. Mas tenho adaptado tudo à minha principal atividade como psicóloga no Centro Social. E se antes de ser mãe não pensava tanto em rentabilizar o meu trabalho, hoje as minhas opções são claramente motivadas por isso. Quando fiz uma pausa nas aulas de fitness, descobri a Maleta Vermelha, na Feira Erótica de Lisboa. Sou consultora há dois anos e as reuniões acontecem geralmente duas vezes por mês, ao fim de semana, e são compensadoras financeiramente. Sinto que ganhei com todas as atividades em que me envolvi, umas beneficiaram outras. Enquanto psicóloga, sou mais um contentor, amparo o que os pacientes me trazem, sou mais racional e calma. Desabrocho e sou mais descontraída como professora de fitness e formadora, a comandar as aulas e a comunicar.

O lado educativo da Maleta sobre a sexualidade feminina também foi facilitado pelos meus conhecimentos de anatomia e educação física e encantou-me a exploração dos sentidos aliada aos produtos muito femininos. Finalmente, este ano lancei-me num novo projecto, O Canto da Psicologia, do qual sou mentora, onde pretendemos tornar a terapia acessível a todos. Tenho uma visão otimista do futuro. Posso desprender-me facilmente das coisas materiais de que não necessito. Enquanto estivermos todos juntos, aqui ou na China, estaremos bem.”
www.canto-psicologia.com
laraxalmeida@gmail.com


Secretária de direcção/Professora de dança/Bailarina/Coreógrafa
Vilma Gracias, 30 anos
, mora com os pais em Algés. A sua maior extravagância foi o Mercedes Classe A que conduz.

“Não me considero workaholic, mas não gosto de deixar nada por fazer. Além disso, a família vem sempre em primeiro lugar. Se pensarmos positivo arranjamos sempre solução e tempo para tudo. Tem sido esse o meu lema. Depois que concluí o curso de Linguística, comecei logo a trabalhar. Aliás, nunca estive mais de duas semanas desempregada. Na faculdade comecei a fazer traduções e a dar explicações de inglês. Mas ainda demorei a perceber exatamente a área em que gostava de trabalhar e isso aconteceu na Siemens, onde estou há dois anos, responsável pela organização de viagens e reuniões do sector. Fui muito bem recebida nesta empresa, que me permite ter horários para outros interesses fora dela.

No meu caso, aulas de dança, a minha outra paixão. O meu primeiro espetáculo foi aos quatro anos, sempre motivada pela minha mãe, muito enérgica e empenhada na divulgação das danças tradicionais de Goa. Sempre dancei em frente ao espelho. Na EDSAE (Escola de Danças Sociais e Artes do Espetáculo), comecei como aluna e passados dois anos já fazia parte do grupo amador de bailarinos. E como sempre tive o bichinho da dança, convidaram-me para ser professora e fui conciliando tudo. Mas nunca o fator financeiro foi a motivação para acumular atividades.

À medida que aumentaram as exigências profissionais na Siemens, fui reduzindo o horário das aulas, mas sem nunca abdicar porque me dá imenso prazer dançar, coreografar, preparar as aulas, ensaiar. É o meu escape. Há três anos lancei uma nova modalidade na escola, o Bollywood, inspirada pela minha paixão pelas cores, filmes e roupas da Índia. Também leciono Ladies Styling, técnica de salsa só para mulheres. Atualmente, tenho três turmas cheias, vou três vezes por semana à EDSAE, entre ensaios e aulas, consigo gerir bem o meu tempo e ainda tenho tempo para o meu namorado e a família.”
www.edsae.pt
 
Etiquetas: Mulheres; Vidas; Carreira; Francisca Atouguia; Lara Almeida; Vilma Gracias; Multitasking
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